Hemodiálise no SUS: crise e defasagem

Hemodiálise no SUS em clínica brasileira com alta demanda

A hemodiálise no SUS vive uma crise que já não pode ser tratada como um problema pontual. O número de pacientes cresce, a rede continua fortemente dependente do financiamento público, a remuneração oficial historicamente rastreável permanece pressionada, e a divisão de responsabilidades entre União, estados e municípios nem sempre se traduz em resposta rápida, clara e suficiente para quem depende da terapia para continuar vivo. O resultado dessa engrenagem falha recai sobre o cidadão comum, que enfrenta um sistema em que custo, repasse, produção e pagamento final nem sempre caminham com a transparência e a previsibilidade que um tratamento vital exige.

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Hemodiálise no SUS e o aumento de pacientes no Brasil

hemodiálise no SUS

Os dados mais recentes mostram por que o tema ganhou urgência nacional. O Censo Brasileiro de Diálise 2024 estimou 172.585 pessoas em diálise no país em 1º de julho de 2024, com 52.944 novos pacientes iniciando tratamento no mesmo ano. A prevalência estimada foi de 812 pacientes por milhão da população e a incidência, de 249 por milhão. Mais do que números, isso significa aumento contínuo da pressão sobre clínicas, equipes, máquinas, água tratada, energia, insumos e transporte de pacientes.

O mesmo censo mostra que 87,3% dos pacientes prevalentes estavam em hemodiálise. Isso importa porque a hemodiálise é uma terapia intensiva em estrutura e em regularidade. Ela não comporta improviso prolongado. Quando a demanda cresce mais rápido do que a capacidade de expansão da rede, o financiamento deixa de ser uma discussão técnica restrita a gestores e passa a ser uma questão de acesso concreto ao cuidado.

O estudo também apontou piora em indicadores ligados ao acesso vascular, à adequação da diálise e ao controle metabólico, além de taxa bruta estimada de mortalidade anual de 16,5%. Esses achados reforçam que a crise da hemodiálise no SUS não pode ser lida apenas pelo prisma burocrático. Quando a rede opera tensionada, a qualidade assistencial também entra no debate.

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Tabela SUS da hemodiálise e o valor pago por sessão

Um dos pontos centrais da discussão é a tabela SUS da hemodiálise. A Portaria GM/MS nº 815, de 30 de junho de 2023, é a referência normativa claramente localizada nesta revisão e registra o valor de R$ 240,97 para procedimentos de hemodiálise. Esse dado é essencial porque oferece uma base oficial rastreável para discutir a remuneração do serviço.

Ao mesmo tempo, o setor da nefrologia sustenta que esse valor ficou abaixo do custo real de operação. Em 2025, a Sociedade Brasileira de Nefrologia divulgou estudo em parceria com a ABCDT apontando custo operacional real de cerca de R$ 343 por sessão, sem impostos, e defasagem superior a 38% em relação aos R$ 240,97 então pagos pelo SUS. A diferença ajuda a explicar por que tantas clínicas relatam dificuldade para sustentar investimentos, reter profissionais e ampliar capacidade.

Houve ainda anúncio público de reajuste em março de 2026. A Agência Brasil informou, com base em anúncio do Ministério da Saúde, aumento de 15% nos repasses para hemodiálise, com valor por sessão passando a R$ 277,12. Como eu não localizei, no material consultado, o ato normativo correspondente com a mesma clareza da Portaria nº 815/2023, o modo mais correto de tratar esse ponto é como anúncio público recente, e não como referência normativa principal desta análise.

Mesmo com esse anúncio, a discussão sobre defasagem não desaparece. Se o custo operacional informado por entidades médicas e prestadoras continuar acima da remuneração efetiva, o problema estrutural permanece. O reajuste ajuda, mas não encerra automaticamente a crise da hemodiálise no SUS, especialmente quando a maior parte do atendimento renal continua concentrada no sistema público.

Responsabilidade da União, dos estados e dos municípios

A crise da hemodiálise no SUS não pode ser atribuída de forma simplista a apenas um ente federativo. O próprio Ministério da Saúde afirma que o financiamento das ações e serviços de saúde é responsabilidade das três esferas de gestão do SUS. Na média e alta complexidade, os recursos federais se organizam principalmente em MAC e FAEC, sendo transferidos aos fundos de saúde de estados, Distrito Federal e municípios.

Na prática, isso significa que a União tem papel decisivo na formulação normativa, no financiamento federal e nas transferências; estados e municípios, por sua vez, atuam na organização da rede, na contratualização, no registro da produção, na regulação local e no pagamento aos prestadores conforme o arranjo de gestão. Em resposta oficial enviada à Câmara dos Deputados em 2025, o Ministério da Saúde reafirmou que a contratualização com prestadores e os pagamentos por produção cabem essencialmente a estados e municípios, enquanto os repasses fundo a fundo podem ser acompanhados em sistemas do Fundo Nacional de Saúde.

É exatamente aqui que o debate sobre responsabilidade ganha seriedade. Quando o recurso demora, quando o pagamento não chega à ponta, quando a clínica relata asfixia financeira ou quando o paciente teme a descontinuidade do atendimento, nenhum ente pode se declarar neutro. A responsabilidade é compartilhada. E, se ela é compartilhada no papel, também precisa ser compartilhada na cobrança pública e na solução prática.

Atrasos nos repasses da hemodiálise e a transparência insuficiente

Os registros públicos mostram que a discussão sobre atrasos saiu do campo apenas setorial. Em fevereiro de 2025, parlamentares apresentaram requerimentos e pedidos de informação à Câmara mencionando atraso aproximado de R$ 400 milhões em repasses para clínicas de diálise conveniadas ao SUS, com alegado impacto sobre mais de 700 clínicas e cerca de 110 mil pacientes. Em resposta oficial anexada à tramitação, o Ministério da Saúde detalhou medidas adotadas, investimentos de 2023 e 2024 e a forma de repasse da assistência nefrológica.

Além disso, há registro do TCU em 2026 sobre denúncia relacionada a atrasos nos pagamentos a clínicas de hemodiálise por parte de secretaria estadual de saúde. Esse dado é importante porque mostra que o problema não pode ser reduzido apenas ao nível federal. Há situações em que o gargalo aparece no fluxo estadual ou local, reforçando a ideia de que a crise se distribui pelas três esferas do SUS.

Também é importante ser preciso ao falar em falta de transparência. Não seria correto dizer que não existe informação pública. O Portal do Fundo Nacional de Saúde oferece consultas a repasse do dia, pagamento consolidado, pagamento detalhado, descontos MAC e outros painéis. A Lei de Acesso à Informação e sua regulamentação também obrigam a divulgação, independentemente de requerimento, de informações de interesse coletivo ou geral.

O problema real é que a informação costuma ser fragmentada, técnica e pouco inteligível para o cidadão comum. Saber que houve uma transferência não é o mesmo que conseguir acompanhar, com clareza, quanto foi produzido, quanto foi autorizado, quanto foi repassado, quanto foi efetivamente pago ao prestador e em qual etapa ocorreu eventual atraso. Quando o percurso do dinheiro não é facilmente rastreável pela sociedade, a transparência existe formalmente, mas o controle social fica enfraquecido. Essa é uma inferência razoável a partir da própria estrutura descentralizada do financiamento e da multiplicidade de sistemas públicos de consulta.

O subfinanciamento da hemodiálise e o peso no cidadão comum

Toda vez que a remuneração pública fica aquém do custo operacional alegado e o fluxo de pagamento passa por atrasos ou incertezas, a conta não desaparece. Primeiro, ela pressiona a clínica. Depois, alcança equipes, fornecedores e capacidade de investimento. Por fim, recai sobre o paciente e sua família, que passam a viver em um ambiente de insegurança sobre a robustez da rede.

Na prática, isso pode significar dificuldade para abrir novos turnos, ampliar cadeiras, substituir máquinas, manter estoque, reforçar equipe e responder ao crescimento da demanda. Em um cenário de aumento contínuo de pacientes em diálise, qualquer fragilidade no financiamento tende a produzir efeito multiplicador. O serviço que já opera no limite tem menos margem para absorver burocracia, glosas, atrasos e custos crescentes.

Há ainda um efeito menos visível, mas profundamente humano: o desgaste da confiança. O paciente que depende da hemodiálise não pode aguardar a resolução de um conflito administrativo entre União, estado e município. Para ele, o tratamento não é uma política abstrata. É rotina de sobrevivência. Quando a discussão pública passa a girar em torno de atrasos, defasagem e dificuldade de sustentação da rede, o medo deixa de ser institucional e passa a ser pessoal.

O que precisa mudar na hemodiálise no SUS

O primeiro passo é tornar a atualização da tabela SUS da hemodiálise mais previsível, técnica e periódica. Um serviço vital, contínuo e dependente de estrutura complexa não pode ficar refém apenas de reajustes eventuais, anunciados sob pressão. A política pública precisa de metodologia clara de custeio e de revisões regulares capazes de acompanhar a realidade operacional.

O segundo passo é melhorar a coordenação entre as três esferas. A União precisa financiar, normatizar e dar visibilidade ao fluxo; estados e municípios precisam contratualizar, regular, registrar e pagar com tempestividade. Quando um elo falha, o tratamento não espera. Em hemodiálise, atraso administrativo nunca é apenas atraso administrativo.

O terceiro passo é simplificar a transparência. O Brasil já possui portais e bases públicas, mas ainda falta uma visualização realmente amigável para pacientes, conselhos de saúde, imprensa e sociedade civil. Um painel nacional que permitisse acompanhar produção, autorização, repasse, pagamento e ente responsável por etapa mudaria a qualidade do debate e reduziria a facilidade com que a responsabilidade se dilui.

Conclusão

A hemodiálise no SUS se transformou em um retrato duro das fragilidades da saúde pública brasileira. O número de pacientes cresce, a dependência do sistema público permanece elevada, a remuneração segue contestada pelo setor e os registros públicos revelam questionamentos concretos sobre repasses, coordenação e pagamentos. Diante disso, falar em crise não é exagero. É reconhecer que a política pública ainda responde abaixo do necessário para um tratamento que não pode falhar.

A principal consequência dessa crise da hemodiálise no SUS não aparece apenas em portarias, ofícios e painéis financeiros. Ela aparece na vida do cidadão comum. É nele que desembocam a defasagem da tabela, a lentidão dos fluxos e a transparência insuficiente. Enquanto União, estados e municípios não transformarem a responsabilidade compartilhada em resposta compartilhada, o paciente continuará pagando o preço de um sistema que deveria protegê-lo.

Qual é o valor pago pelo SUS por sessão de hemodiálise?

A referência normativa claramente localizada nesta revisão é a Portaria GM/MS nº 815/2023, que registra R$ 240,97 para procedimentos de hemodiálise. Houve anúncio público de reajuste em março de 2026, mas o ato normativo correspondente não foi localizado com a mesma clareza no material consultado

O número de pessoas em diálise está aumentando no Brasil?

Sim. O Censo Brasileiro de Diálise 2024 estimou 172.585 pacientes em diálise e 52.944 novos pacientes iniciando tratamento em 2024, mostrando aumento contínuo da demanda.

A responsabilidade pela hemodiálise é só do governo federal?

Não. O financiamento das ações e serviços de saúde no SUS é responsabilidade das três esferas de gestão: União, estados e municípios. Na média e alta complexidade, os recursos envolvem componentes como MAC e FAEC.

Existem registros oficiais sobre atrasos nos repasses?

Sim. Em 2025, pedidos de informação e requerimentos na Câmara citaram atraso aproximado de R$ 400 milhões em repasses para clínicas de diálise, e houve resposta oficial do Ministério da Saúde sobre o tema. Há também registro do TCU em 2026 sobre denúncia ligada a atrasos de pagamentos a clínicas de hemodiálise.

Por que se fala em falta de transparência na hemodiálise?

Porque há dados públicos, mas eles são espalhados por sistemas diferentes e nem sempre permitem ao cidadão acompanhar com facilidade todo o caminho do recurso até o pagamento final ao prestador. Isso dificulta o controle social efetivo.

Como essa crise afeta o cidadão comum?

Ela pode dificultar a expansão da rede, a manutenção de estrutura, a previsibilidade dos serviços e a segurança percebida pelos pacientes. Em um tratamento contínuo como a hemodiálise, qualquer instabilidade financeira ou administrativa pesa diretamente sobre quem depende da próxima sessão.
Aviso importante: Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico ou nutricionista. Cada pessoa possui necessidades específicas, especialmente em relação à saúde renal. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure um profissional de saúde.

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